História da Gula a partir de Santo Agostinho
- Felipe Daniel Ruzene

- 28 de mar.
- 4 min de leitura
A gula, um dos sete pecados capitais, estabeleceu uma teologia da alimentação, transformando o estômago em um campo de vigilância espiritual. O desejo, antes um espaço de exercício ético na filosofia antiga, tornou-se um palco de conflito entre corpo e alma. Historicamente, em nome da fé, a ânsia por comida e bebida foi ressignificada: deixou de ser um simples apetite para se tornar um problema moral e espiritual, e um portal para vícios maiores, sendo a glutonaria identificada como a primeira ameaça à santidade.

Santo Agostinho, bispo de Hipona (na atual Argélia, Norte da África) entre os séculos IV e V, dedicou profunda reflexão à natureza da gula, não a vendo meramente como um excesso alimentar, mas como um significativo obstáculo ao reencontro do indivíduo com o divino e à verdadeira felicidade da alma. Para ele, tal como os demais pecados capitais, a gula exigia um combate rigoroso. A solução, nesse contexto, era a prática do jejum, entendido como a busca por saciar a fome apenas o suficiente para a subsistência e a conservação da saúde, mas jamais pelo prazer em si. Agostinho sustentava que a felicidade genuína não reside em experiências sensoriais; portanto, a mortificação do corpo era vista como um imperativo ético e espiritual, um caminho essencial para o engrandecimento da alma e, em última instância, para a santidade em Cristo.

Em suas obras magnas, especialmente nas Confissões (397-400 d.C.), o filósofo articulou a insidiosa sedução do prazer na alimentação e na bebida. Ele notou que:
A busca pelo prazer antecede a necessidade: "Não há prazer algum em beber ou comer sem que haja antes o estímulo da sede ou da fome" (Livro 8, Capítulo 3). O prazer torna-se um fim em si, assim é convertido em pecado.
O prazer subverte a razão: Agostinho reconheceu a finalidade original da alimentação ("A razão do beber e do comer é a conservação da saúde"), mas lamentou o poder do prazer de desviar esse propósito: "mas um prazer insidioso acompanha como lacaio essas funções, e sempre tenta tomar a dianteira, de modo que faço pelo prazer o que digo fazer por minha saúde" (Livro 10, Capítulo 31).

A gula, para Agostinho, não se resumia a comer em demasia, mas manifestava-se como uma busca intrínseca do ser humano pelo prazer de transgredir a ordem estabelecida. Ele ilustrava isso com episódios de sua própria infância, narrando furtos cometidos na despensa e à mesa dos pais, ora motivados pela gula, ora como moeda de troca para interagir com outras crianças (Livro 1, Capítulo 19). O caso mais emblemático é o roubo das peras do pomar do vizinho, um ato cometido não por necessidade ou fome, mas puramente pelo capricho e a ânsia de fazer o proibido (Livro 2, Capítulo 4). Sua conclusão era de que o verdadeiro poder reside no autocontrole: aquele que domina suas vontades e apetites, domina seu próprio mundo.
Essa severidade agostiniana ecoou em outros Pais da Igreja, como São João Crisóstomo, bispo de Constantinopla no século IV. Crisóstomo via a "intemperança do ventre" como uma força destrutiva de proporções históricas, culpando-a:
Pela expulsão do homem do Paraíso, que (somada ao orgulho) deu vez ao pecado original - comer o fruto proibido.
Pela calamidade do Dilúvio nos tempos de Noé, uma vez que a gula é somada aos vícios dos humanos da época.
Pela destruição de Sodoma junto à luxúria.
Para ele, a gula assumia uma posição de destaque entre os vícios humanos (apenas secundária aos pecados contra Deus), pois funcionava como motor dos demais vícios, dando corpo ao anseio de transgressão já identificado por Agostinho.
Durante a Idade Média, circulava uma história popular sobre São João de Beverley, um eremita e bispo inglês do século VIII. Segundo a lenda, Deus o teria submetido a um teste: um anjo lhe deu a opção de escolher entre três pecados — assassinato, violência sexual ou, apenas, a gula por meio da embriaguez. O santo, como era de se esperar, escolheu a gula. No entanto, bêbado, ele teria se deitado e, nesse estado, assassinado a própria irmã. Para os teólogos medievais, a moral dessa história era clara: o excesso na comida ou na bebida servia como porta de entrada para pecados muito mais graves, frequentemente mortais.
Um continuador direto dessa linhagem foi São João Cassiano, que inseriu a gula no contexto da regra monástica no século V. Ele identificou-a como o primeiro dos vícios a ameaçar a vida dos monges. A luta espiritual, segundo Cassiano, tinha seu ponto de partida no estômago. Assim, a disciplina alimentar, que englobava jejum, frugalidade e vigilância constante, estabeleceu-se como uma ferramenta de purificação e ascetismo essencial para a vida monástica.

Contudo, uma tradição teológica posterior, iniciada pelo Papa São Gregório Magno no século VI, propôs uma visão um pouco matizada. Gregório Magno, ao catalogar os pecados capitais, tendeu a considerar os vícios carnais, entre os quais se incluía a gula, como aqueles de menor gravidade ou culpa intrínseca. Para ele, a pena divina em eventos como o Éden, o Dilúvio ou Sodoma não foi imposta pela gula em si, mas pelos pecados mais graves que eram consequentes à gula (luxúria, orgulho, soberba, inveja etc.). A gula seria a porta de entrada, mas não necessariamente o crime final mais gravoso.
Em suma, mesmo com o reconhecimento universal da pecaminosidade da gula no pensamento patrístico, o excesso alimentar permaneceu um pecado paradoxal e complexo. O debate entre os próprios Pais da Igreja, ora vendo a gula como possível raiz de todo mal, ora como o menos culposo dos vícios carnais, revela a falta de consenso quanto à sua gravidade e natureza exata, demonstrando a persistente tensão teológica sobre a relação entre o corpo e a alma na jornada espiritual cristã. Todavia, uma constância na filosofia cristã medieval é a ideia proveniente de Agostinho ade que os prazeres à mesa podem afastar a humana da finalidade que julgavam central - encontro com o divino.
Saiba mais sobre a Teologia da Gula na Idade Média:
Felipe Daniel Ruzene
Programa de Pós-graduação em História
Universidade Federal do Paraná
Referências:
Agostinho de Hipona. 2020. Confissões. Rio de Janeiro: Editora Petra.
Bíblia Sagrada. 2002. São Paulo: Editora Paulus.
Felipe Daniel Ruzene. 2024. Pão nosso de cada dia: religiosidade, dietética e jejum na Igreja Ortodoxa Bizantina. Revista Faces da História, Assis-SP, p. 282–309.





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