top of page

Entre Culinária e Retórica no diálogo "Górgias"

  • Foto do escritor: Felipe Daniel Ruzene
    Felipe Daniel Ruzene
  • 7 de mar.
  • 8 min de leitura

Intentando compreender se a retórica produz ordem e bem ou mera adulação, Platão apresenta o diálogo entre Sócrates e Polo, discípulo de Górgias, buscando uma definição para a retoricidade. Na opinião do filósofo quatro são as artes genuínas: legislação (νομοθετική) e justiça (δικαιοσύνη) que buscam o maior bem da mente, também ginástica (γυμναστική) e medicina (ιατρική) que vislumbram o bem do corpo.



A essas quatro artes que visam os cuidados e o verdadeiro Bem do corpo e da alma corresponderiam quatro modalidades de adulação ou espúria (εϊδωλον). São elas: sofística (σοφιστική) em imitação à legislação, retórica (ρητορική) à justiça, toilette/adornos (κομμωτική) à ginástica e, por fim, a culinária (όψοποική) – enquanto cozinha requintada ou gastronomia, em termos modernos – como oposição à medicina.

Platão apresenta uma distinção entre a dimensão hedonista2 e a dimensão nutricional da alimentação no Górgias (380 AEC).


A culinária serve de exemplo para que Sócrates investigue junto aos seus interlocutores quanto à natureza e função da retórica, concluindo que nenhuma delas é uma arte, mas “atividade empírica” destinada a produzir “certo agrado e prazer” (462c; 462e).


A distinção entre essas categorias (arte/empirismo) reside em três critérios: a natureza, physis (Φύσις), a causa, aitia (αἰτία), e a razão ou princípio lógico, lógos (λόγος) (501a). A medicina, por exemplo, pode ser entendida como techne, pois trata da alimentação enquanto elemento nutricional e dietética – ela examina a natureza das patologias do paciente, estuda a causa dos diagnósticos e pauta suas soluções em princípios racionais que definem os tratamentos (501a-c). A medicina, então, forma uma consciência dietética própria, que faz uso da dicotomia entre doentes e saudáveis para interrogar quais os regimes característicos a cada um desses dois padrões de vida. Há, portanto, natureza, causa e razão em sua investigação (477e-478a). Assim, a “dieta dos doentes” (ἡτῶν καμνόντων δίαιτα) se configura em regime distinto à “dieta dos saudáveis” (ἡ τῶν ὑγιαινόντων δίαιτα) – como determinam os tratados médicos do corpus hipocrático.


A culinária, contudo, não examina nem a natureza, nem a causa de seu objeto (supostamente o prazer no alimento), tampouco produz um discurso de conhecimento pautado em princípios técnico-racionais. Ao invés disso é um saber que “conserva-se pela rotina e pela prática, apenas para preservar a lembrança do que é costume fazer e, através da repetição, proporciona prazer” (501a). Isto é, enquanto a medicina busca o conhecimento da boa e da má dietética para a saúde do corpo, a culinária intenta tão somente produzir gratificação e prazer em um perfil “completamente a-científico” (κομιδῇ ἀτέχνως, 501a).


O caráter empírico obtido através de longa experiência e provações de sucesso e fracasso que caracterizam a alimentação requinta não apresentam uma explicação racional ou padronização de seus procedimentos – como ocorre na dieta médica e deveria estar presente em qualquer forma de arte (464b-c). “Portanto, repito, a culinária é lisonja disfarçando-se de medicina” (465b).


A dimensão científica da saúde, presente na medicina, faz uso dos alimentos, bebidas e drogas (φάρμακον) para constituição da nutrição e do bem-estar dos indivíduos, enquanto a dimensão do gosto, presente na culinária, faz uso dos alimentos, bebidas e temperos (ἥδυσμα) para satisfação dos prazeres (464b-d; 501a).


A arte culinária, portanto, mostra-se potencialmente inibidora das virtudes, uma vez que sobrepõe o prazer ao conhecimento racional, médico-dietético. O caráter desvirtuador dos prazeres alimentares é retomado por Platão em sua passagem por Siracusa, como apresentado na Sétima Carta (c. 353 AEC).


Para Sócrates o caráter subserviente da culinária demonstra que não se trata de uma arte ou técnica (τέχνην), mas (assim como a retórica) uma prática empírica (ἐμπειρία) ou hábito (τρῐβή) (463b). A partir daí o filósofo explora a oposição entre a medicina (ἰατρική), conhecedora daquilo que bem nutre o corpo, e a culinária, legisladora de dietéticas que, por meio da adulação (κολακεία/κολακευτική) dos sentidos, sobrepõem o mais prazeroso ao mais adequado (463b-c; 464c-d).


A consciência socrático-platônica não nega o prazer à mesa, nem crê que toda e qualquer refeição deve ser baseada exclusivamente em critérios nutritícios. Porém, o excesso, hybris (ὕϐρις), dos prazeres é destruidor das virtudes humanas e, por conseguinte, potencialmente perigoso à saúde individual e coletiva da pólis. A visão de Sócrates em Górgias (464d) é de que a culinária representa um simulacro da medicina, mera “arte da adulação”, techne kolastiké (τέχνη κολαστική), defendendo que atribuir ao cozinheiro (μαγειρική) uma competência que é própria ao profissional clínico (a de saber distinguir os alimentos adequados dos inadequados para manutenção da saúde) é uma sobreposição da adulação ao Bem.


Semelhantemente, a retórica é apresentada como adulação da justiça, isto é, prática que visa apenas causar prazer imediato ou simples aparência do bem (463a-b). A retórica, defendida por Górgias, seria, então, mera bajulação ou simulacro do bem pretendido pela justiça, estabelecendo com ela uma relação, não de domínio, mas de falsificação e adulação. Uma simulação atrelada ao prazer e não preocupada com o verdadeiro Bem (465a). A oposição entre retórica e justiça chega a seu ápice no diálogo quando Sócrates afirma que a retórica é inútil para aqueles que não cometem injustiças (481a). Uma vez que o cometimento de injustiças, viabilizado pela prática retórica, só é verdadeiramente benéfico aos injustos. A culinária, deste modo, está para a medicina, no que diz respeito aos cuidados com o corpo, como a retórica está para a justiça, no contexto de cuidados e tratamento da alma (465c).


“Então culinária e retórica são uma só coisa?”, pergunta Polo (462e). Sócrates nega e afirma que a aproximação dessas duas áreas está justamente no fato de ambas legislarem sobre a mente e corpo, sem visar o Bem ou produzir conhecimento racionalizado, passando-se pelas artes genuínas (464c). “É assim que a culinária toma aparência da medicina, julgando saber dos melhores alimentos para o corpo” (464d), por isso, a finalidade da retórica e da culinária é exatamente a mesma: produzir agrado e prazer (462c-e).


É notório que a medicina grega antiga estava principalmente ligada à dietética. Hipócrates (460-370 AEC) estabelece, em Da medicina antiga (5.2), que muitos não fazem uso da razão médica para orientar sua alimentação. Esses indivíduos levam suas vidas em função daquilo que é mais agradável, “orientados para o prazer”, prós ēdonèn (πρὸς ἡδονὴν), sem a privação dos desejos ou controle das próprias vontades. Para o pai da medicina a dieta mais indicada é aquela das pessoas saudáveis, a das “mesas terapêuticas” (orientadas pela medicina), assim como defende Platão em defesa às artes genuínas (464d).


A alimentação prescrita por Hipócrates, orientado pela techne fisiológica, exige privação e contenção, buscando sempre a saúde (terapêutica) em detrimento do gosto (prazer). A hedone alimentar deixa de ser central na arte médica. Contudo, no livro II de seus Aforismos, o médico determina que se deve escolher, preferencialmente, os alimentos de qualidade um pouco inferior, embora “mais prazerosos” em vez daqueles de melhor qualidade, mas “menos saborosos”. Assim, o prazer alimentar proveniente da culinária não é central para a dietética hipocrática ou para a filosofia platônica, mas também não é ignorado.


Em verdade, não apenas a alimentação estava na pauta da dietética médica. Em Epidemias (IV, 6), Hipócrates lista toda uma série de incumbências humanas que deveriam ser pautadas por semelhante moderação (σωφροσύνη) e virtude, sendo devidamente regulamentadas na busca do maior bem para o corpo. São elas: os exercícios físicos, pónoi (πόνοι), os alimentos, sîtos (σῖτος), as bebidas, potá (ποτά), os sonos, húpnoi (ύπνοι) e as relações sexuais, aphrodísia (αφροδίσια). Assim, a consciência terapêutica problematiza a relação com o corpo e desenvolve um modo de vida baseado em escolhas determinadas pela busca no maior cuidado à saúde, não na plena satisfação dos desejos e prazeres – pois fazer apenas o agradável é um mal (467a). Assim contemplamos a sintonia entre os critérios enunciados pela filosofia socrático-platônica e a avaliação dietético-médica da teoria hipocrática.

Sócrates (464d-e) enunciou, ainda, quanto a falsa visão de que “a boa comida”, tá chrēstà sitía (variação superlativa de χρηστός, na expressão τὰ χρηστὰ σιτί́α), advém exclusivamente dos cozinheiros, enquanto “a pior comida”, tá ponirà sitía (τὰ πονηρὰ σιτί́α), é a prescrita pelos médicos. Uma associação bastante similar à contemporânea, na qual se edifica uma relação direta entre regime e desprazer, de forma que comer com base na nutrição médica, ou fazer dietas medicativas é sinônimo de privação e dissabor, logo é considerada pior.


Todavia, a culinária de requinte dos cozinheiros “visa o prazer sem o melhor” (ὅτι τοῦ ἡδέος στοχάζει ἄνευ τοῦ βελτίστου), como afirma (465a) e reafirma Platão (501b). Enquanto isso as dietéticas médicas estão do lado das técnicas que visam o Bem do corpo, não das formas de adulação que visam tão somente o prazer. Porém, como reconhece o filósofo em diálogo com Polo, caso crianças pudessem votar entre a dieta do médico ou do cozinheiro, certamente escolheriam o alimento orientado ao prazer, não ao Bem (464e).


Se o argumento da retórica é eximir da justiça aqueles que cometem males buscando o bem, é necessária uma cura (480c). Do contrário, permanecem como crianças que buscam tão somente o grau superlativo do prazer, comendo apenas as iguarias da culinária sem preocupação com a nutrição do corpo e temendo as ações médicas. Aqueles que escolhem o mais prazeroso ao invés do maior Bem são como os que fogem ao tratamento médico por receio das más sensações que possam surgir ao longo do processo de cura (479b). Portanto, a medicina é a techne que liberta o corpo da doença (477e-478a), mesmo que o tratamento não seja sempre agradável (478b-c). Assim também a justiça trata os males da retórica.


Por isso a aproximação platônica entre retórica e culinária, em oposição à justiça e medicina, respectivamente. A medicina necessita “castigar” o corpo viciado nas iguarias prazerosas para curá-lo, como o injusto deve aceitar a punição e não construir retoricidades para praticar uma injustiça sem ser castigado (479d). Neste sentido, defende Platão que é preferível sofrer uma injustiça do que causá-la (469c; 479e) e Sócrates solicita a Polo que se entregue à discussão como se estivesse diante de um médico, logo diante do tratamento para a cura (475d).


O diálogo Górgias (521d-522a) apresenta com clareza a dicotomia representada pelo confronto entre a mesa prazerosa, dos cozinheiros, e a mesa terapêutica, dos médicos, relacionando-a à oposição entre a retórica e a justiça. A boa alimentação, para Platão, assim como o bom discurso, seria aquela que não adula os sujeitos, guiando-nos pelo que é prazeroso, mas aquela que busca o Bem, seja ou não agradável (503a-b).

Logo, a melhor alimentação seria aquela pautada pelas mesas terapêuticas, não pela mesa das iguarias e prazeres. Encontramos tais noções em outros diálogos platônicos, como Alcibíades (I, 108e-109a), quando Sócrates reafirma que cabe ao médico julgar “o mais adequado ao corpo”, e Íon (531e), dizendo que “dentre diversas pessoas que falam sobre quais são os alimentos saudáveis” é o médico quem fala melhor. Platão se refere à relação entre culinária e medicina também no Banquete (187a-e), através do médico ateniense Erixímaco, para quem a medicina e a culinária se comparam a boa e má música, bem como ao bom e ao mau amor.



Felipe Daniel Ruzene

Programa de Pós-graduação em História

Universidade Federal do Paraná

PPGHIS/UFPR



Referências

DIAS, A. C. S. P. Alcibíades primeiro de Platão: estudo e tradução. 2015. Dissertação (Mestrado em Letras Clássicas) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.

HIPÓCRATES. L'ancienne médecine. Paris: Les Belles Lettres, 1990.

HIPÓCRATES. Epidemics. Loeb Classical Library. Cambridge: Harvard University Press, 1994.

PLATÃO. Platonis Opera. Tomus III. Edição de John Burnet. New York: Oxford University Press, 1903.

PLATÃO. Charmides; Alcibiades I, II; Hipparchus; The Lovers; The Ages; Minos; Epinomis. Loeb Classical Library. Cambridge: Harvard University Press, 1964.

PLASTIRA-VALKANOU, M. Medicine and fine cuisine in Plato's Gorgias. L’Antiquité Classique: revue interuniversitaire d’études classiques, v. 67, p. 195-201, 1998.

SOARES, C. Mesas terapêuticas e mesas saudáveis: Platão em diálogo com a literatura médica e gastronómica. Archai: the origins of western thought, Brasília, n. 23, p. 229-264, 2018.

Comentários


ACOMPANHE EM OUTRAS MÍDIAS:

  • Instagram
  • LinkedIn
  • Amazon
  • Youtube
  • Spotify

Obrigado pelo envio!

© 2026 by Projeto Comensal (UFPR). Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page