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A "Sétima Carta" e a dietética como imoralidade política em Platão

  • Foto do escritor: Felipe Daniel Ruzene
    Felipe Daniel Ruzene
  • 27 de fev.
  • 6 min de leitura

Entre os textos mais enigmáticos do corpus platônico, a também chamada Sétima Carta ocupa posição singular. Redigida em tom autobiográfico e político, ela relata as três viagens de Platão a Siracusa e sua frustrada tentativa de formar o tirano Dionísio II na filosofia. Mais do que simples narrativa memorialística, o texto apresenta uma reflexão aguda sobre a corrupção do poder, a dificuldade de transformar regimes políticos por meio da educação filosófica e, de modo menos frequentemente explorado, sobre a relação entre regime de vida, alimentação e decadência moral.



Diferente do que se pode supor, a história da filosofia ocidental há muito reflete a alimentação como eixo significativo ao desenvolvimento de múltiplas perspectivas filosóficas – como política, metafísica, ética ou epistemologia. Embora, quase sempre, a alimentação apareça em plano secundário, como metáfora para conceitos mais amplos, nas últimas décadas, a história cultural e filosofia da alimentação – dentro daquilo que temos chamado “Estudos Alimentares” (Food Studies) – têm resgatado os pensadores que apontaram à cozinha como gesto social, político, religioso e ético.


Neste contexto, o filósofo ateniense Platão (c. séc. IV a.C.) ocupa um lugar central. Não porque tenha escrito um tratado sistemático sobre o assunto, mas porque, ao pensar a alma, a virtude, a cidade e a educação, fez da alimentação e da culinária eixos práticos da formação moral, constantemente evocado em seus tratados. O que se come, como se come, com quem se come e em que contexto se come tornam-se centrais ao pensamento da verdade, ética, arte, discurso, política, prazer…


Platão, muito antes do desenvolvimento teórico-metodológico de uma “filosofia da alimentação” ou “dietética”, dedicava-se a refletir a potência moral dos alimentos e dos hábitos à mesa em meio à ampliação do gosto pela opulência culinária no Período Clássico (sécs. VI a IV a.C.), sobretudo entre as elites atenienses após a tirania de Pisístrato – como bem destacou a historiadora Maria Regina Candido (2012, p. 13-15). Essa perspectiva atravessa diálogos como Carta VII, Górgias, A República, Banquete e As Leis, revelando uma coerência notável: o papel central da alimentação na formação de virtudes ético-políticas e a dieta opsofágica (aquele que é dada às iguarias finas) como desvirtuação da dieta terapêutica.


Um dos textos mais eloquentes sobre a relação entre alimentação e ética aparece na Carta VII, escrita no contexto das experiências de Platão em Siracusa, na Sicília. Ali, o filósofo descreve uma sociedade marcada por banquetes excessivos, embriaguez cotidiana e prazeres desmedidos que, em sua análise, refletiam um modo de vida associado diretamente ao governo tirânico.


A experiência siciliana, que envolve figuras como Díon de Siracusa e a corte dionisiana, revela para Platão que a transformação política exige transformação do caráter. E essa transformação passa, entre outros elementos, pela disciplina do corpo — pela dietética no sentido amplo grego (diaita), isto é, o regime de vida que compreende alimentação, exercícios, prazeres e autocontrole.


Sustento, neste artigo, que na Sétima Carta Platão associa implicitamente a corrupção política de Siracusa a uma forma de desordem dietética: a vida cortesã, marcada pelo luxo, pela abundância e pelo desregramento, constitui um obstáculo estrutural à filosofia e à justiça. A imoralidade política manifesta-se também como desordem corporal.


O ponto decisivo aqui é que Platão não critica apenas o regime político de Siracusa, mas o ethos alimentar que o sustenta. Para ele, sociedades habituadas ao excesso à mesa tendem a produzir cidadãos sem autocontrole que por sua vez levam a governantes inclinados à hybris (desmedida). A tirania, portanto, não nasce apenas de estruturas institucionais alheias, mas da ausência do governo de si – primeiro, diante da comida, depois, na administração da pólis.


Essa era a minha opinião na ocasião em que cheguei pela primeira vez à Itália e à Sicília. E, quando cheguei, não me agradou em absoluto o que chamam lá de a vida feliz, repleta de banquetes itálicos e siracusanos, com indivíduos passando suas existências se empanturrando duas vezes por dia e jamais dormindo sozinhos à noite, além de todas as demais práticas que acompanham esse modo de vida. De fato, nenhum indivíduo que viva sob o céu jamais se tornaria sábio se atendo a essas práticas desde jovem- tal comportamento espantoso é contra a natureza – e provavelmente jamais se tornaria dotado de autocontrole, algo idêntico podendo ser dito no que toca às outras formas de virtude. (Platão, Carta VII, 326b-c).


A desmedida dos siracusanos em seu modo de vida levou a uma população carente de virtude, sabedoria e autocontrole. Por sua vez, essa falta de sensatez se refletiu no governo, que se tornou tirânico e abusivo. O filósofo estabelece, sem hesitar, uma clara conexão: a desmedida na alimentação e uma vida injusta corrompem diretamente os sistemas de governo.


Tampouco qualquer Estado gozaria de estabilidade, não importa quais fossem suas leis, se seus homens, ainda no pensamento de que devem em tudo exceder-se, acreditassem que devem eximir-se de todo esforço, exceto daquele despendido em festins e bebedeiras, além dos prazeres do sexo que buscam com determinação. Tais Estados se mantêm, necessariamente, transformando-se em tiranias, oligarquias e democracias, e os seus governantes mal podem suportar a menção do nome de uma forma de governo justa e dotada de leis de igualdade. (Platão, Carta VII, 326d).

James Davidson (1995), professor de história antiga na Universidade de Warwick (Inglaterra), em seus estudos sobre a opsofagia (gula aristocrática ateniense), mostra como o imaginário grego associava tiranos a corpos vorazes, glutões e sexualmente desregrados. Platão retoma essa tradição, mas lhe confere densidade filosófica: o problema não é simplesmente comer muito (afinal os anseios e necessidades dos corpos são relativos), mas confundir prazer com “Bem”. As argumentações presentes nesta epístola platônica apontam para a compreensão ética de que sem disciplina alimentar não há disciplina política. O governo justo começa no autogoverno de seus cidadãos, e estes, por sua vez, têm suas virtudes testadas à mesa.


Platão conclui que apenas uma filosofia autêntica é capaz de discernir e estabelecer o que é “bom” e “justo”, tanto na esfera pública (aquela da política) quanto na privada (aquela das práticas alimentares). Ele argumenta que somente verdadeiros filósofos ou governantes genuinamente dedicados à filosofia poderiam permitir o adequado governo de si e dos outros. Platão enfatiza que uma vida marcada por excessos obstrui a prática filosófica, por conseguinte, os líderes filosóficos ideais seriam aqueles que se controlam diante da opulência dos banquetes e da embriaguez dos simpósios, uma vez que a ética é o alicerce da felicidade, quer seja dos sujeitos individualmente ou de todo o contexto político da cidade.


Assim, em meu louvor à correta filosofia, fui forçado a declarar que é por meio dela que somos capacitados a discernir a essência da justiça, tanto no âmbito do Estado quanto naquele do indivíduo, e que não haverá fim para os males da espécie humana enquanto a classe daqueles que são correta e verdadeiramente amantes da sabedoria (filósofos) não governar, ou então a classe que governa os Estados não se tornar, por favor dos deuses, realmente filosófica. (Pl. Carta VII, 326a-b).

Ainda que a Sétima Carta não ofereça um tratado explícito sobre alimentação, sua leitura à luz da teoria política platônica permite afirmar que:


  1. A corrupção política está ligada ao desregramento dos desejos.

  2. O regime de vida de uma corte tirânica favorece excessos.

  3. A filosofia exige disciplina corporal e moderação.

  4. A incapacidade de reformar Siracusa decorre da recusa em transformar hábitos fundamentais.


A dietética, portanto, funciona como categoria implícita de análise moral. Uma cidade que cultiva luxos e prazeres desmedidos torna-se estruturalmente hostil à justiça. A imoralidade política é também imoralidade do corpo. A experiência siracusana ensinou a Platão que a reforma política não se realiza por mera instrução teórica. A filosofia exige transformação radical do modo de vida — uma reorganização que inclui hábitos alimentares, prazeres e práticas cotidianas.


Felipe Daniel Ruzene

Programa de Pós-graduação em História

Universidade Federal do Paraná

PPGHIS/UFPR



Referências

Davidson, James. Opsophagia: revolutionary eating at Athens. In: Food in Antiquity. Exeter: University of Exeter Press, 1995. p. 204‐213.

Notario, Fernando. Plato’s political cuisine: commensality, food and politics in the Platonic thought. Ágora, v. 17, p. 123‐158, 2015.

Platão. Cartas e Epigramas. Tradução: Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2012.

Ruzene, Felipe Daniel. À mesa de Platão: filosofia e alimentação nos diálogos socrático-platônicos. Curitiba: Saca-Rolhas Edições, 2022.


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